Cezar De Lima, formado em Direito pela PUCRS e advogado criminalista em Porto Alegre, responde dez perguntas sobre o projeto de extensão que participou ao longo da graduação:

  • Como você ficou conhecendo o Projeto Rondon e o que te motivou a se engajar nessa iniciativa?

Conheci o Projeto Rondon durante uma reunião de apresentação do projeto na PUCRS. A equipe de coordenação do Rondon da PUCRS fez uma apresentação geral do projeto com o depoimento de alguns participantes. Logo vi que era um projeto que eu tinha que participar, pois o que mais motiva os participantes é a oportunidade de conhecer a realidade das comunidades carentes do Brasil e, com isso, adquirir um aprendizado que nenhum banco de faculdade pode proporcionar.

  • Como você descreve o Projeto Rondon para quem está conhecendo a iniciativa pela primeira vez?

Uma experiência única. Um dos melhores projetos de extensão que eu já conheci. O Projeto Rondon é coordenado pelo Ministério da Defesa e é um projeto de integração social que envolve a participação voluntária de estudantes universitários na busca de soluções que contribuam para o desenvolvimento sustentável de comunidades carentes e ampliem o bem-estar da população. Além disso, o projeto proporciona aos estudantes uma experiência inédita de vida, até porque faz com que os acadêmicos saiam da sua zona de conforto e vivenciem a realidade da maioria da população brasileira.

  • Como é sua estrutura e funcionamento e qual é o seu objetivo?

O Projeto Rondon existe há bastante tempo. Dentre os objetivos do projeto, destaco o de: (i) Contribuir para a formação do universitário como cidadão; e consolidar aos acadêmicos o sentido de responsabilidade social, coletiva, em prol da cidadania, do desenvolvimento e da defesa dos interesses nacionais. As operações do Projeto Rondon são realizadas em janeiro e julho de cada ano, durante o período de férias escolares. Os convites (edital) são divulgados no site www.defesa.gov.br/projetorondon, normalmente, nos meses de março e agosto. Cada equipe é composta por 8 alunos e como se trata de um projeto do Ministério da Defesa, ele é custeado integralmente pelo Governo Federal, não havendo nenhuma despesa para os alunos participantes.

  • Como foi o processo de seleção? Qual ou quais são as suas características pessoais que você considera que foram determinantes para ser escolhido no Projeto Rondon?

Cada Universidade adota uma forma específica para selecionar os alunos participantes. Na PUCRS há uma equipe muito bem organizada que elabora um processo seletivo de 40 a 60 dias antes do início da operação - em geral acontecem oficinas, pesquisas acerca da população que os participantes irão fazer a integração. Aspectos fundamentais que são decisivos para escolher um participante: ter um perfil de liderança, estar aberto para novos conhecimentos, ser criativo e saber lidar com as adversidades.

  • Qual era a sua expectativa em relação ao projeto antes de se envolver com as atividades? Como era o alojamento em que vocês ficavam, era seguro?

A expectativa era a melhor possível, pois queríamos muito “conhecer” um Brasil - que sabíamos que era muito distante das nossas realidades. Preparávamos as oficinas sempre buscando imaginar como seríamos recebidos pela comunidade e se eles aceitariam participar das nossas atividades. Ficamos em um alojamento, como se fosse uma pousada, disponibilizada pela prefeitura. Como a cidade era pequena, não tínhamos a sensação de insegurança, de qualquer sorte, cada equipe do projeto Rondon é acompanhada por um sargento do Exército, que recebe o apelido de “anjo”, que além de cuidar da parte logística fica responsável pela segurança da equipe.

  • Na experiência de campo, conversando com as pessoas e vivendo a realidade delas, o que elas pensam sobre ser cidadão no Brasil? Isso impactou na sua visão de Brasil hoje?

Essa é uma pergunta difícil. Ficamos 15 dias na cidade de Alto Alegre do Pindaré/MA, a comunidade nos recebeu com muita festa e alegria. Diariamente conversávamos com os moradores para entendermos a realidade local. O sentimento da comunidade era de sempre fazer algo para melhor as condições em que eles vivem. A cidade é muito pobre, 0% de tratamento de esgoto, muitas famílias vivem em situação de miséria. E sem dúvida alguma, a forma com que eles superam essas dificuldades me fez repensar muita coisa sobre o nosso país.

  • O que você mais aprendeu com a sociedade/pessoas atingidas pelas atividades no Projeto Rondon? O fato de ter organizado muitas oficinas por lá te trouxe aprendizados específicos?

Valores. Esse é o grande aprendizado que o Projeto Rondon me proporcionou. Além do mais, o projeto Rondon proporciona um aprendizado que nenhuma outra faculdade poderá proporcionar, em que conheci pessoas que dificilmente teria conhecido, nas quais jamais teria conversado, cumprimentado e abraçado.

  • Conte-nos um caso ou exemplo marcante do Projeto Rondon para você.

Poderia dizer apenas um. Mas vou tentar resumir alguns momentos marcantes. O primeiro deles foi a nossa chegada. Após 6 horas dentro do vagão do trem, fomos recebidos por uma multidão de pessoas da cidade que foram até a estação férrea com banda, balões, cartazes e muita alegria. Outro exemplo marcante eram as noites do “Cine Rondon”, no qual realizávamos no teatro municipal - ver aquelas crianças com os olhos vidrados na tela improvisada foi uma coisa única.

No entanto, o momento mais importante foi o final de semana de oficina que realizei, junto com meu colega Celso Guimarães Jr, na Casa Familiar Rural. Colocamos pais e filhos em uma grande oficina para debatermos as melhores soluções para os problemas enfrentados pelos pequenos agricultores da região. No fim, quando nos despedíamos, um pai me chamou para o lado e emocionado, agradeceu o pouco que nós havíamos feito por eles.

  • Como você conciliou essa atividade de extensão com as atividades curriculares obrigatórias do seu curso? Qual é a dica que você pode dar para alguém que quer se envolver com uma atividade além da sala de aula e não quer comprometer seus estudos?

No Rondon, todas as operações ocorrem no período de férias escolares. No entanto, a preparação da equipe ocorre meses antes, e concomitante com as disciplinas da faculdade. Acho que saber organizar o tempo é a principal orientação nesses casos. Na minha experiência tive que conciliar o estudo acadêmico às atividades do estágio e a preparação para o Rondon. Essa fase foi muito importante, pois vi que com organização é possível cumprir com todos os objetivos.

  • O que um jovem estudante interessado pode fazer para participar do Projeto Rondon ou de outras atividades similares? Qual é o seu conselho para novas pessoas se envolvendo com extensão?

Para participar do projeto, primeiramente, o jovem deve buscar saber se a sua instituição de ensino participa do Projeto Rondon, pois infelizmente algumas universidades não oportunizam essa experiência. De qualquer sorte, uma dica importante é aproveitar o período da graduação para participar de qualquer projeto de extensão, pois esse é o momento da vida que temos tempo de conhecer novas experiências e apreender novos valores.