O dia primeiro de julho parece que sempre vai ter um gostinho de nostalgia. Há dois anos, eu pegava o meu diploma de mestrado em Direito Econômico pela Sciences Po – acordei cedo para fazer a vistoria final do apartamento que era o cantinho mais especial que eu poderia encontrar em Paris para viver sozinha; me arrumei, provavelmente comi um croissant na boulangerie e fui para a cerimônia de entrega de diplomas em um dos locais que sempre quis conhecer em Paris (auditório da RadioFrance). Chegando lá, tive a grata surpresa de ganhar um broche de aluna “cum laude”, o que tornava tudo ainda mais inacreditável. Estava sozinha na cerimônia e é assim mesmo que era para ser - a conclusão de uma jornada tão minha. Quando peguei o meu diploma, eu tinha um sorriso que não cabia em mim. E quando a cerimônia terminou, uma colega de turma chegou para mim e me perguntou se estava tudo bem – acho que eu estava com uma feição de quem ainda estava processando “então é isso, eis aqui o diploma que significa tanto para mim”.

E qual é o propósito desse papel? Antes de ir para a França, eu sabia o que eu queria do meu mestrado: (i) adquirir conhecimentos de ponta na minha área (Direito Internacional Privado); (ii) aprofundar em matérias que eu não conseguiria estudar no Brasil, ao menos não do jeito que eu gostaria; (iii) conhecer um ambiente acadêmico internacional de qualidade, poder desenvolver pesquisa com os melhores pesquisadores; (iv) ter a validação formal para poder alcançar objetivos profissionais maiores. Querendo ou não, o mestrado é o que legitima o próximo passo na sua carreira, seja acadêmica ou profissional. E sim, esse “papel” cumpriu o seu propósito – foi a porta para a internacionalização da minha carreira. Mas o “papel” não foi um fim em si mesmo: foram dois anos intensos de estudos e muitos aprendizados que continuo processando até hoje. Tive várias oportunidades ao longo do mestrado e continue explorando esses caminhos quando terminei os meus estudos.

Antes de começar o mestrado, eu tive bastante tempo para ponderar o que era prioridade para mim naquele programa – pude traçar planos que otimizaram bastante o que eu ia decidindo a cada semestre. É claro que os planos não saem 100% como no papel, mas tudo bem! Às vezes as coisas dão mais certo do que você esperava (eu terminei o meu primeiro ano do mestrado com uma surpresa maravilhosa) e outras não. Planos são uma estratégia inicial que criamos e vamos adaptando conforme for. Posso contar, em detalhes, o que foram esses altos e baixos para mim, mas o importante é deixar a mensagem que o mestrado passa muito rápido (um LLM mais ainda) e é muita coisa ao mesmo tempo. O que você puder fazer antes para facilitar essa experiência e não ficar completamente “overwhelmed” (de escolhas, coisas novas, desafios, etc), melhor. E você precisa ter um norte, do contrário existe uma chance de você ficar perdido e crises existenciais acontecerem. Sabendo o que você quer tirar dessa experiência, você consegue aproveitar melhor. No segundo parágrafo, mostrei quais eram os meus “objetivos gerais” (a sua Carta de Motivação deve ser assim – é o primeiro plano que você faz sobre estudar naquela instituição), mas na verdade eu tinha uma longa lista de objetivos bem específicos – e realistas (eu jamais ousaria colocar na minha lista “ficar no top 10% do programa”, e posso contar o porquê disso num outro texto também).

Quero voltar no ponto em que eu mencionei “ainda estava processando o que isso significava” – acho que essa era a tônica do fim do meu mestrado. No primeiro ano, fiz doze matérias por semestre; no segundo, foi um pouco mais leve - mas com docência e tese junto. E tudo isso num ritmo muito corrido parisiense, trabalhando no fuso horário do Brasil e nos finais de semana também. Foi tanta coisa ao mesmo tempo que eu realmente sentia a necessidade de “respirar” e assimilar tudo que o mestrado me trouxe e o que mais eu poderia fazer com aquilo. Se eu for conferir a minha lista, não tenho dúvidas que tenho leituras e coisas para estudar até hoje! E tudo bem – porque o mestrado não é uma lista exaustiva onde se dá conta de tudo. O mestrado é uma jornada.

A pergunta maior que essa jornada traz é: Será que você está fazendo tudo para ser quem você pode ser? Não quem pessoa A, B ou C é 1, mas quem você – dentro dos limites e possibilidades do seu potencial – pode se tornar? Nunca fique com um gostinho amargo na boca quando você tenta responder isso.

Um ano depois da minha formatura, o gostinho para mim era de realização - exatamente na mesma data, fiquei ciente que o meu processo de revalidação do diploma na USP tinha sido aprovado em todas as fases burocráticas da universidade e que, para todos os fins, também era mestra em Direito Internacional no Brasil; viajava à trabalho para Viena, uma cidade que sempre quis conhecer, e de quebra ainda tinha a oportunidade de fazer um aperfeiçoamento em uma nova área de conhecimento em uma das universidades mais contemporâneas que eu já conheci (WU), tudo patrocinado pela empresa; a sensação era de novos horizontes no âmbito profissional.

Hoje, escrevo esse texto enquanto viajo de trem para um almoço de negócios em Genebra. A sensação é de que estou fazendo justamente o que gostaria de fazer, e não tem nada melhor do que isso. São essas coisas que a gente tem um sonho vago quando se forma, mas não tem certeza do que o futuro nos guarda. O fim dessa etapa também pode ter esse um misto de incerteza e ansiedade. Mas precisamos abraçar o desconhecido e confiar que estamos traçando um bom caminho, nos erros e acertos. Não fique duvidando de si mesmo, perguntando “e se” ou “what is next”, se estressando demais com o futuro. Não gosto de determinismos, mas levo com carinho uma frase que a minha vó me disse num momento que eu não sabia direito o que fazer do mestrado: “o que é nosso está guardado”. Acho que se vivemos à altura do que podemos ser, isso realmente pode ser verdade para o que está por vir.

Aos que estão trilhando ou concluindo essa jornada do mestrado no exterior agora, desejo as melhores surpresas nos rumos futuros e uma doce leveza na conclusão. Olhando para trás, o diploma significa mil maravilhas no plano subjetivo: “os belos anos que vivi em Paris”, e como fui feliz.


  1. O Rabino Súcia, um santo homem, chorava sentidamente no seu leito de morte. Os discípulos perguntaram: “Por que chorais, se fostes sempre tão piedoso? Porventura temes que o Senhor pergunte por que não fostes um Moisés?” “Não”, responde o rabino, “na verdade receio é que Ele me pergunte: “Súcia, por que não fostes Súcia?” [return]