O ano que passamos em Dundee foi um divisor de águas absolutamente sem par no que diz respeito ao nosso desenvolvimento pessoal e acadêmico. Todos os momentos que constituíram esta inesquecível aventura, desde a etapa de planejamento até a volta para o Brasil, foram vividos e compartilhados por nós como um casal, e é como um casal que escrevemos o presente texto.

Tudo começou como uma hipótese, quando a Raiana (Rai) se inscreveu no certame do Ciência sem Fronteiras (CsF) para o Reino Unido e eu, recém-formado, timidamente ensaiava meus próximos passos acadêmicos. À medida que ela foi obtendo êxito nas etapas de seleção do CsF, a ideia da viagem começou a se tornar real, dando início à fase do planejamento.

Esta etapa foi complicada pois sabíamos que, se quiséssemos viver essa experiência juntos, precisaríamos conquistar vagas em uma universidade que compatibilizasse nossos interesses, ou seja, que tivesse o vínculo com o CsF na área de Energias Renováveis, e que também oferecesse um mestrado (LLM) de qualidade que se amoldasse aos meus interesses acadêmicos e possibilidades.

Considerados estes fatores, bem como qualidade e custo de vida das cidades do Reino Unido, a Escócia surgiu como uma séria possibilidade, e a Universidade de Dundee se mostrou como uma opção viável e compatível com os nossos objetivos.

Após confirmada a aprovação da Rai no curso de Renewable Energies da Universidade de Dundee, teve início o meu processo de aplicação. Apliquei para diversos cursos de mestrado (LLM) nas Universidades de Dundee (primeira opção), Strathclyde (Glasgow), Glasgow e Edimburgo – para ter um ‘Plano B’.  Após realizar teste de proficiência em inglês (IELTS), obter cartas de recomendação junto a ex-professores; elaborar cartas de motivação pessoal (contando com a inestimável ajuda da Rai nas revisões) e buscar tradução juramentada para os meus registros acadêmicos, submeti as aplicações e, após uma longa espera, obtive aceitação nos cursos de International Law (Glasgow), Sustainable Development (Strathclyde) e, para a nossa vibração, Environmental Law (Dundee). Nós havíamos conseguido, em pouco tempo estaríamos embarcando para Dundee, uma pulsante cidade universitária às margens do rio Tay, para viver o ano mais intenso das nossas vidas.

Chegando em Dundee, fomos surpreendidos pela hospitalidade dos locais e pela efervescência cultural da cidade, que em função da universidade, possui uma intensa cena de agitação cultural, abrigando estudantes de todos os lugares do mundo em um ambiente plural e movimentado. Instalamo-nos em uma acomodação estudantil oferecida pela própria universidade (a cerca de 5 minutos a pé da universidade e a 10 minutos a pé do centro da cidade), situada às margens do Rio Tay (a vista da janela da cozinha dava para o Rio!). Neste flat, além de termos feito boas amizades, dividimos não somente um quarto, mas também a vida. Tendo esta sido nossa primeira experiência fora de casa, pudemos perceber ganhos inigualáveis em relação ao crescimento pessoal (de ambos): fazer compras, cozinhar, lavar roupas, fazer contas, tudo isto contribuiu imensamente para nosso amadurecimento e ganho de autonomia – não apenas no plano individual, mas também como um casal que divide apartamento e contas.

Com relação ao estudo do direito, destaco o caráter internacional e crítico da experiência acadêmica. A ênfase no diálogo e na troca de experiências entre diferentes culturas jurídicas, proporciona um ambiente aberto e multicultural para o estudo do direito. Por sua vez, a ênfase no pensamento crítico me ajudou a perceber atrasos e estigmas do direito brasileiro, como a imaturidade das nossas práticas democráticas e o formalismo patrimonialista ainda presente na nossa academia e prática jurídica.

Devido à autonomia que tínhamos em relação aos estudos, sobrou tempo para passear e viajar. Com frequência, nos fins de semana, íamos a Londres, Glasgow e Edimburgo – cidades cuja agenda de eventos culturais e shows é sempre lotada. O clube de Montanhismo da Universidade de Dundee nos proporcionou a chance de conhecer as paisagens magníficas das Highlands escocesas. Promoções constantes proporcionavam passagens de trem e de avião a bons preços, o que nos possibilitou conhecer várias cidades da Europa (Lisboa, Paris, Berlin, Hamburgo, Praga e Amsterdam). Também visitamos a Espanha, onde pudemos curtir Málaga e, demoradamente, a maravilhosa Barcelona.

Jamais poderíamos conceber com clareza as infinitas e inimagináveis dimensões do aprendizado que esta experiência desenvolveu em nós. O acúmulo desta imensa bagagem histórica e cultural gerou um sentimento cosmopolita, de pertencimento a um mundo muito maior do que aquele que estamos acostumados a viver – e muito além das barreiras da nacionalidade. Sobretudo, o acúmulo de momentos inesquecíveis vividos conjuntamente foi fundamental para o fortalecimento da nossa parceria e amizade. Em resumo, o sucesso desta empreitada está refletido no nosso desejo já consolidado de repetir a experiência, desta vez fazendo um PhD.