Em 2014, no segundo ano da faculdade de Direito, eu estava no auge da minha “MUN fever” - depois de uma experiência maravilhosa como delegada do Conselho de Segurança do UFRGSMUN 2013, estava ansiosa para participar de tantas simulações da ONU quanto fosse possível.

Índia MUN

Foi em uma reunião do GEDIN, o Grupo de Estudantes de Direito Internacional da PUCRS, aprendendo com as dicas e experiências de colegas que modelavam há mais tempo, que ouvi falar pela primeira vez num tal “Índia MUN”. Me interessei imediatamente. Alguns meses depois, vencidas as burocracias da obtenção do visto e assegurado o auxílio financeiro da PUCRS, estava embarcando rumo à Mumbai como parte da delegação brasileira conjunta PUCRS-UnB. O Índia MUN era o International India Model United Nations (IIMUN), a maior simulação da Nações Unidas em todo o continente asiático, reunindo mais de 1.500 delegados à nível de graduação e Ensino Médio.

O evento transcorreu super bem, mas não sem algumas diferenças culturais e surpresas para os brasileiros! Por exemplo, não era permitido usar internet durante a sessão (apenas nos intervalos) e havíamos nos inscrito sem querer em um comitê de Ensino Médio (no site não trazia essa informação em lugar algum, mas todo mundo estava acostumado com comitês de Assembleia Geral serem apenas para secundaristas). Ainda, era permitido realizar discursos em qualquer uma das seis línguas oficiais da ONU e as intervenções feitas pela Mesa eram muito maiores e mais frequentes. A conferência foi realizada em um hotel enorme e todos os delegados estavam hospedados e faziam todas as refeições por lá. Isso acabou sendo muito bacana porque nos proporcionou uma convivência muito próxima com os organizadores e demais delegados. Aprendi bastante durante as sessões, mas aprendi infinitamente mais com as observações e conversas que ocorreram fora delas.

Diferentemente de minhas outras experiências internacionais (até então, todas em países latinos ou ocidentais), onde as diferenças culturais causavam dúvidas muito pontuais sobre porque coisas específicas são feitas de maneira diferente da qual estamos acostumados, estar na Índia foi entrar em um estado de incompreensão quase permanente sobre questões das mais complexas às mais absolutamente cotidianas. Meu interesse pré-existente pela política, sociedade e processos democráticos da região aumentou imensamente e voltei pra Porto Alegre com quilos de livros (literalmente - tive que pagar excesso de bagagem) sobre o subcontinente indiano, na tentativa de entender um pouco melhor aquele lugar que me encheu de dúvidas. Me despedi com uma saudade antecipada, mas com a certeza do retorno.

Estágio

No ano de 2017, na reta final da faculdade de Direito, ingressei como bolsista de Iniciação Científica no projeto “Criminologia Global e Justiça de Transição desde o marco da Colonialidade”, onde tive a oportunidade de continuar a me dedicar ao estudo do Sul da Ásia, focando minha pesquisa no processo justransicional de Bangladesh depois de sua guerra de independência. A conclusão do curso se aproximava e, antes da formatura, procurava uma experiência internacional na área de direitos humanos e desenvolvimento social. A busca por opções no subcontinente indiano surgiu de maneira muito natural pela relação com meu objeto de pesquisa, mas também como alternativa aos estágios não remunerados em cidades europeias com custos de vida altíssimos. Apliquei para três organizações na região - um centro de pesquisa em Delhi e duas ONGs dedicadas à prestação de assistência jurídica em direitos humanos, uma em Mumbai e uma em Daca. Cada processo de aplicação de candidatura teve suas particularidades, mas sem fugir do básico esperado: currículo, carta de motivação, carta de recomendação ou contato de referências, entrevista por Skype. Acabei sendo aceita nas três e, depois de bastante indecisão, decidi aceitar a vaga junto à Bangladesh Legal Aid and Services Trust (BLAST).

BLAST

Com colegas de trabalho em frente à Suprema Corte de Bangladesh.

A ONG se dedica à prestação de assistência jurídica à população vulnerável (Bangladesh não tem o equivalente à uma Defensoria Pública, então a BLAST e outras organizações ajudam a suprir essa lacuna), mas também à implementação de projetos na área do direito e desenvolvimento, que inclui questões como acesso à justiça e igualdade de gênero. Durante os três meses que passei em Daca, realizei pesquisa para litigâncias estratégicas correndo junto à Suprema Corte (o judiciário é operado todo em inglês, o que facilita bastante pra quem vem de fora e sabe aproximadamente cinco palavras em bengali), acompanhei o monitoramento de um projeto de fortalecimento de “juizados especiais” em regiões remotas, ajudei a atualizar a política de gênero da BLAST, e trabalhei com a implementação de projetos relacionados à igualdade de gênero.

A dinâmica do campo do desenvolvimento em Bangladesh é bastante diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil - lá, o terceiro setor e a sociedade civil organizada são muito fortes, o fluxo de assistência e colaboração internacional (international aid) é intenso, e muitas responsabilidades comumente assumidas pelo Estado são cumpridas por organizações não governamentais. Só para exemplificar - cheguei a trabalhar em um projeto que impactava meio milhão de mulheres, onde a BLAST era responsável por desde iniciativas educacionais visando à conscientização sobre igualdade de gênero até o estabelecimento e gerência de postos de saúde e cursos profissionalizantes. Foi muito interessante poder ver isso de perto e aprender mais sobre o processo de desenvolvimento do país, que costumava apresentar os piores indicadores sociais da região, mas que hoje, para a surpresa de muitos, já ultrapassa os vizinhos em várias questões centrais; também entendi melhor muitas das críticas à atuação de organizações e agências de cooperação internacionais.

Morar em Daca foi uma experiência e tanto - as diferenças culturais são abundantes e o cotidiano de um centro urbano que comporta cerca de 15 milhões de pessoas numa área do tamanho de Porto Alegre é intenso, para dizer o mínimo. É uma cidade fascinante, que se revela aos poucos ao visitante atento. A comida bengali é deliciosa, as pessoas são queridíssimas, hospitaleiras e frequentemente anglófonas, o interior do país é lindo e a produção artística e cultural é fascinante. A região encontra referências limitadas no imaginário estrangeiro e muito se perde quando isso afasta ao invés de despertar curiosidade. Aprendi imensamente durante minha estadia lá e os benefícios da experiência foram pessoais, profissionais e acadêmicos. Pude visitar pessoalmente museus e sítios históricos que estudei durante a Iniciação Científica e muito do conhecimento que adquiri durante o estágio tem aplicabilidade direta no contexto brasileiro. Apesar das diferenças inumeráveis, há desafios comuns a todos os países em desenvolvimento e estabelecer uma ponte com as experiências e práticas do restante do Sul Global é extremamente enriquecedor e necessário.

Quem quiser conhecer melhor o trabalho da BLAST pode se informar pelo site BLAST: What We DO e quem quiser saber mais sobre algum aspecto da minha experiência por lá, ou tiver vontade de discutir política sul-asiática, pode escrever para mim no email da bio.