O ano de 2008 marcou o início de um sonho. Lá estava eu, com dezoito anos, me preparando para ingressar em uma universidade americana. Porém, ainda eram muitas incertezas na cabeça (como é de se esperar de um jovem nessa idade). Os Estados Unidos representavam pra mim um passaporte para a independência e a chance de unir o útil ao agradável na minha vida. Tenista desde pequeno, foi nessa época que me dei conta de que poderia usar o esporte para ganhar uma bolsa de estudos. Parece perfeito, não é mesmo? No entanto, não é tão simples se comprometer a ficar quatro anos da sua vida longe de seu país, família e amigos.

Diante de tamanha indecisão, resolvi que precisaria estar preparado para dois cenários diferentes. No Brasil, o foco para alguém da minha idade era o vestibular. Já nos Estados Unidos, o processo de admissão era bem diferente. Além da parte acadêmica (notas do ensino médio e provas admissionais), também é necessária uma redação que relate experiências pessoais, o que torna o processo de avaliação um pouco mais subjetivo e holístico.

O caminho era muito claro com relação ao meu desempenho no ensino médio, no vestibular e nas provas. Eu teria que estudar e ponto final. Mas e a redação sobre experiências pessoais? Vale destacar que ela é usada para diferenciar candidatos semelhantes em termos acadêmicos. Eu não fazia a menor ideia sobre o que escrever e fui obrigado a refletir sobre o assunto: afinal, quem sou eu? Foi então que eu comecei a rabiscar o papel: Meu nome é Felipe Watanabe, sou natural de Campinas, São Paulo. Não, muito óbvio. Apaga. Reescreve. Apaga de novo. E assim foi, pelo menos uns dez rascunhos que não deram em nada.

Minha sorte foi que 2008 marcou também um ano especial para a comunidade japonesa no Brasil. O que começou em 1908 com o navio Kasato Maru no porto de Santos trazendo os primeiros imigrantes japoneses se tornara um evento centenário. Eu, como neto de japoneses, fiz parte dessa celebração. Resolvi explorar essa ideia. Iniciei minha pesquisa e pude constatar que aproximadamente 2 milhões de brasileiros possuem ascendência asiática. Pode parecer bastante, mas representa apenas 2% da população do país. Ou seja, isso faz de mim uma minoria.

Lembrei também da minha visita à terra do sol nascente, no ano de 2001. Eu tinha só onze anos, mas me recordo do sentimento de não pertencer ao lugar. Além das diferenças óbvias na cultura e no idioma (eu não falo japonês), simplesmente não me sentia em casa. Não me entendam errado, a visita foi ótima – como turista.

Portanto, minha redação foi exatamente sobre isso. Em qualquer lugar do mundo, eu sou parte de uma parcela da população de 2% ou menos. Isso não é necessariamente bom ou ruim, mas me torna diferente dos demais. Descrevi os meus sentimentos sobre como, às vezes, eu era vítima de estereótipos nem sempre realistas. Na minha visão, eu poderia ser uma pessoa que contribuiria para quebrar tabus e aproximar as culturas ainda mais. Deu certo. Hoje, sou formado em Economia e passei quatro anos incríveis estudando e competindo.

O meu recado para os estudantes que passarão pelo processo de admissão nos Estados Unidos é: o que te faz diferente? Toda pessoa é um mundo – de opiniões, culturas e pensamentos. Basta se conhecer e entender o que te destaca no meio da multidão.

Esse texto foi originalmente publicado no G.A.T.E.