Desde o início da graduação, eu soube que gostaria de fazer mestrado e doutorado. Direito Internacional sempre foi minha área de interesse ou, melhor dizendo, minha paixão jurídica. Os cinco anos da faculdade de Direito foram repletos de atividades extracurriculares, desde participação em moot courts, até cursos de verão no exterior. Quando me formei, no início de 2015, surgiu a oportunidade de estudar em São Paulo, razão pela qual eu necessitava trabalhar para poder arcar com as despesas das viagens semanais para lá.

Comecei, então, a trabalhar como advogada do departamento de Direito Administrativo de um dos maiores escritórios de Curitiba. Minhas atividades se voltavam à elaboração de pareceres e notas técnicas, pois fui alocada para a seção consultiva do departamento. Em virtude de minhas pretensões acadêmicas, eu sentia bastante familiaridade com as tarefas do consultivo administrativo: cada consulta assemelhava-se a um artigo acadêmico e os prazos eram mais longos do que as demandas do contencioso.

No final do ano de 2015, optei por tentar o processo seletivo do mestrado também na UFPR. As portas em São Paulo se fecharam e, no final das contas, voltei para a minha alma mater em Curitiba. Eu sabia que o que havia me motivado a aceitar o trabalho como advogada era a necessidade de pagar as viagens a São Paulo. Desta forma, quando ingressei no PPGD da UFPR, em março de 2016, já imaginava que, em algum momento, passaria a me dedicar exclusivamente à vida acadêmica.

Como é de se imaginar, foi bastante conturbado conciliar o mestrado com a advocacia. Não havia tempo livre, pois os finais de semana eram o melhor momento para estudar, fazer fichamentos e me preparar para as aulas. Durante a semana, eu tentava estudar quando chegava do trabalho, mas o cansaço era tamanho que eu dormia sentada no sofá com muita frequência. Em agosto de 2016, após o primeiro semestre do mestrado e todos os artigos que precisei escrever, fiquei muito doente. 1 Isto me levou a pedir demissão do escritório e a focar nas atividades acadêmicas.

No começo de setembro de 2016, foi lançado o edital das bolsas da CAPES, pelo Programa de Excelência Acadêmica. Inscrevi-me e, após o processo seletivo, fui aprovada em primeiro lugar e me tornei bolsista do PPGD da UFPR. Foi aí que minha dedicação exclusiva ao mestrado começou. O valor da bolsa era consideravelmente menor do que meu salário de advogada, mas as consequências de “ter todo o tempo do mundo” para a vida acadêmica foram infinitamente mais recompensadoras. Pude, inclusive, passar um mês e meio estudando na Academia de Direito Internacional da Haia, o que enriqueceu e muito minhas referências bibliográficas para a dissertação e me permitiu conversar com juristas de diversos países sobre minha pesquisa.

Na faculdade, desempenhei atividades relativas à docência, tendo auxiliado minha orientadora em duas disciplinas optativas da graduação, ambas afetas ao direito internacional dos direitos humanos, o que contribuiu imensamente com o aprofundamento de meus estudos na área. Não apenas isto, também tive a honrosa oportunidade de ser coach por duas vezes de nossas equipes da UFPR que participaram do IAMOOT (Inter-American Human Rights Moot Court Competition), organizado anualmente pela American University, em Washington D.C. Ademais, participei de inúmeros eventos, proferi palestras, apresentei artigos, fui juíza de simulações de Direito Internacional, tudo isto graças à possibilidade de “apenas” fazer mestrado – o que, em si, já dá um trabalho enorme!

Não estou a dizer que todos devem se dedicar exclusivamente às suas vidas acadêmicas. Tenho colegas e amigos – os quais admiro muito – que conseguem conciliar trabalhos em escritórios de advocacia ou em órgãos públicos e desempenham com excelência suas funções de mestrandos e doutorandos. Eu tentei levar esta vida dupla, mas não era para mim. Não teria feito metade das atividades que desenvolvi durante o ano e meio em que fui bolsista se tivesse que trabalhar. Não foi uma escolha fácil sair do escritório, mas, hoje, mestra e com planos futuros para o doutorado, entendo que não poderia ter vivido experiência melhor do que a dedicação exclusiva ao mestrado.

Porque participei de muitos eventos acadêmicos, ampliei minha rede de contatos com estudantes e profissionais do Direito Internacional, o que é de extrema importância caso você, assim como eu, deseja ser professor universitário. O processo de escrita da dissertação – que será objeto de outro post – também foi facilitado em virtude do tempo que tive para amadurecer as ideias e colocá-las no papel. Acredito que cada acadêmico conheça suas pretensões e seus limites para poder se decidir pela dedicação exclusiva ou não. A recomendação que posso deixar é: não descarte esta possibilidade. A vida acadêmica é muito gratificante e poder ter o foco no mestrado ou doutorado é ainda mais valioso.


  1. Não tenho nada grave! Mas até descobrir o diagnóstico, foram meses de angústia, idas semanais ao pronto socorro e muitos, muitos exames. Meu cardiologista afirmou que a síndrome do vaso vagal que eu desenvolvi foi causada pela combinação de estresse, ansiedade e sedentarismo, o combo que ganhei de presente por ter muitas responsabilidades e não saber muito bem administrá-las de forma saudável. Isso nos levaria a outra conversa sobre saúde na pós-graduação. [return]